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domingo, 30 de março de 2014

Gostas mais do papá ou da mamã?

É difícil explicar como acontecem as coisas. Não posso dizer que o sentimento é fácil porque não é claro, nem simples amar. Mas eu tento.



O meu pai e a minha mãe amavam-se. Durante anos nós os três fazíamos tudo juntos, mesmo que o meu pai trabalhasse fora, ele fazia parte do dia a dia, contávamos-lhe tudo, por telefone, por messenger e por carta, quando ele ficava muito tempo fora de casa achava que era a melhor maneira de nunca me esquecer do que lhe queria contar. Fomos de férias juntos, todos estes anos. Até que chegou um dia em que o meu pai me perguntou: "Se eu e a mamã não estivermos mais juntos com quem gostavas de ficar?". Eu tinha 12 anos, mas não tão ignorante para pensar que era uma pergunta sem nenhum fundamento. Ao chegar à casa, da escola, nesse mesmo dia perguntei a minha mãe se eles se iriam separar. Ela disse que não e eu acreditei, como sempre acreditei eu tudo o que ela dizia. Mas de noite, já na cama, ouvi-os discutir. Falavam do que tinham combinado, de falar daquele assunto juntos.
Lembro-me perfeitamente que passaram 16 dias, eu contei os dias pela que a notícia ia cair sobre mim depois da pergunta do meu pai, afinal de contas eu já esperava, mas só queria que não tivessem sido apenas 16 dias.
"Carinho, eu e o papá vamos separar-nos, mas não vamos deixar de gostar de ti. Vais ter duas casas..." e o discurso continuou como aquele que ouvimos e vemos nas séries, novelas e filmes onde há separações pacíficas. Assim foi, durante alguns dias questionei-me, andei triste, mas tive que mentalizar-me que iria ter duas casa, duas moradas, duas camas, duas vezes mais brinquedos, basicamente tive que pensar nas vantagens de ter os pais separados. Mas custou, custou imenso. Agora, sou mais velho, tenho 17 anos e ainda sinto a necessidade de ter uma casa, uma morada, uma cama, menos brinquedos e a presença dos meus pais na mesma casa.  Mas a vida é assim. Eu amo os dois e espero, com isto, nunca fazer o que eles me fizeram a um filho meu.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Aprender a Ser Feliz - Parte 2

Depois de a deixar na escola, onde se despediam com um beijo e um abraço. Cláudia seguia viagem pelas ruas já mais movimentadas de Carcavelos. Era um hábito passar ali todos os dias que já saudava com um alegre “Bom Dia!” as senhoras, já reformadas, que se encontravam penduradas no balcão das suas janelas a conversarem. Não havia dia em que ou era atropelada por um triciclo de um neto de uma dessas senhoras ou que tivesse que dar um pontapé numa bola com os quais os meninos do bairro jogavam felizes e livres. E ela sempre bem-disposta retribui-a um “Desculpe Senhora” ou um “Obrigado” com um sorriso maternal.



Cláudia continuava a caminhar, ela tinha que estar em Estoril às 12. No caminho o telefone tocou, mas de início ela nem deu conta. Anita, como sempre, pregava-lhe partidas, e hoje tinha-lhe trocado o toque do telemóvel e enquanto as pessoas iam passando por ela, só se ouvia: “Se te portas mal vai haver terror/ Se te portas mal vais sentir dor/ Se te portas mal ai por favor…/ Vou ter de te dar e tu vais levar pancadinhas de amor”. Depois da vergonha inicial, Cláudia pegou no telefone, sorriu, e atendeu. “Estou?” disse Cláudia ao ver que o número era do hospital, enquanto parou a sua caminhada. Do outro lado alguém dizia algo com o que a mãe de Anita só anuía. Depois de muito ouvir só disse: “No final do dia eu passo ai e resolvo esta situação.”. A chamada terminou, Cláudia levou às mãos a cabeça ela não sabia como resolver o problema que tinha. Apetecia chorar, mas logo depois lembrou-se da brincadeira da filha e pensou para si mesma enquanto olhava para o telemóvel: “Hoje vai custar, mas vou fazer das tripas coração para teres o que comer ao jantar”. E a caminhada continuava. Num passo mais acelerado. Enquanto isso ligava a alguém. “Preciso de fazer trabalho duplo hoje. O dinheiro faz-me falta. Vê o que me arranjas.” E ao proferir estas palavras Cláudia sentiu as lágrimas caírem-lhe pelos olhos. Não se orgulhava de ter que se prostituir para criar a filha e um marido. Mas a vida não era fácil para esta antiga cabeleireira. Ela viu o seu salão arder, desaparecer por um incêndio provocado no restaurante do lado, por um dos sócios, enquanto ainda tinha empréstimos de vários produtos por pagar. Não se pode reerguer e recorreu a prostituição, para não ter que roubar, e para dar de comer a filha.
Enquanto pensava na vida e chegava à casa do primeiro cliente, limpou as lágrimas e sorriu. Pensou: “Tudo está bem!” e foi aborda-lo. “Olá Hugo”, disse-o baixinho de forma erótica ao seu ouvido. Hugo, seu cliente há mais de dois anos, era casado, tinha dois filhos, mas algo o atraia em Cláudia. Por seu lado Cláudia detestava Hugo, era um homem desprezível. Bancário, estalava os dedos e tinha tudo o que queria. Sem hesitações Cláudia foi para o quarto, já conhecia bem o espaço, e Hugo foi atrás dela. Pelo caminho até ao quarto, Cláudia foi-se despindo, tirou um sapato, depois o outro, tirou uma das meias, a outra. Hugo, atrás apreciava tudo e o desejo de a possuir só aumentava. Ao chegar ao quarto Cláudia já só estava de soutien e cuecas. Ao entrar, Hugo estava de boxers e Cláudia na cama a espera dele, que não hesitou quando ela a chamou para ir para a cama. Hugo rapidamente a beijou, tinha um forte desejo por ela, beijava-a nos pés, subia pelas suas pernas, com a boca tirou-lhe o soutien e continuava a percorrer o seu corpo esbelto. Ao ouvido sussurrou-lhe “Eu amo-te”. Cláudia afastou-o. Hugo continuou: “Eu amo-te Claudia, desde o primeiro momento em que te vi. Se me dissesses para largar tudo, mulher, filhos e casa eu largava e ia viver contigo para debaixo da ponte. Tudo o que eu quero és tu.” Cláudia confusa contestou: “Tu não sabes o que estás a dizer. Se vivesses como eu vivo não dizias isso. Vamos fazer o seguinte: Eu vou esquecer que me disseste isso. Vens aqui e cumpres como um homem, no final pagas-me e eu vou-me embora.” Hugo triste interrompeu-a: “Mas…” Contudo Cláudia não deixou-o continuar: “Hugo, é isto ou nada. Nunca mais.”. Apesar de lamentar Hugo não queria desaproveitar a oportunidade de a possuir e, por isso, fizeram amor na cama, no chão, enquanto tomavam duche juntos. No final Hugo pagou-lhe e despediu-se com um beijo na testa dizendo: “Tu ainda vais ser minha.”
Cláudia estava a almoçar. No entretanto já tinha recebido uma mensagem da morada do cliente para a tarde. Era novo. Ela não o conhecia. Mas até era perto do local onde almoçava. Como ainda tinha tempo foi dar uma volta pelo centro comercial, ver aquilo que gostava de ter para ela e para a filha mas não podia comprar. Entrou numa das lojas que mais gostava, numa loja de bolsas. As empregadas já a conheciam e nem a abordavam, como fariam naturalmente com uma cliente. Ela observava, tocava, mas não podia levar. Suspirava só por as ter em mãos e lembrava-se da quantidades de malas que tinha e que vendou para colocar dinheiro em casa.

Saiu do centro comercial para ir de encontro ao 2º cliente do dia. Ao chegar tocou à campainha e perguntou pelo Srº Drº Ribeiro. Ele próprio veio abrir. Disse-lhe para estar a vontade que estava sozinho em casa. Ela deu-lhe dois beijos na cara e cumprimentou-o com um “Boa Tarde”. O Ribeiro estava constrangido, nunca tinha feito sexo à pagar e notava-se que não estava à vontade com a situação. Ele, envergonhado, perguntou: “Como é que faço?”. Cláudia sorriu e afirmou: “Está a vontade. Eu sei o que estás a sentir. Já vi muitos casos assim. Quero que relaxes. Tens algo para beber? Ajuda.” Ribeiro sorriu, por estar a ser tão bem tratado, pensando que iria ser algo mais frio, e respondeu: “Tenho sim, vou buscar. Um whisky, pode ser?”. Cláudia anuiu. Ribeiro regressou com dois copos, brindaram e beberam. Cláudia e Ribeiro conversavam e ela começou a passar as suas mãos pelos cabelos do cliente para tornar a conversação mais intima. Foi então que Cláudia perguntou o porquê de ele recorrer a prostitutas. Ele triste disse: “Esta casa é enorme, tem 5 quartos, 4 quartos de banho, uma cozinha maior do que muitas casas que eu conheço, no entanto e, apesar de tanto espaço vivo aqui sozinho. Construi esta casa para a minha mulher, para os meus filhos e todos me deixaram. Eles foram fazer a vida deles, a minha esposa, foi uma vadia abandonou-me por um homem ainda mais rico. Ele prometeu-lhe uma vida de luxo. E eu pergunto-me, mais luxo que isto?” Cláudia estava a sentir-se triste por ver um homem sozinho assim e ao mesmo tempo por ela e a família não terem a oportunidade de terem um quarto do que este homem tem. Mas como ela tinha que ser fria e pensar no dinheiro sorria e apenas dizia: “As coisas vão melhorar, podes ter a certeza. Tudo se vai encaminhar e os teus filhos não se esqueceram de ti.” 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Aprender a Ser Feliz - Parte 1

Acordava todos os dias às 5 e meia da manhã e ligava o rádio, era a sua primeira companhia da manhã. Ao som de uma calma música de Edith Piaf, olhou-se ao espelho e reparou que passava mais um dia da sua vida, onde tudo se mantinha igual. Assim se via Cláudia Vanessa, de 31 anos, com uma filha por criar e com um marido para sustentar. Como todos os dias, vestiu as suas meias de licra, colocou o seu baton cor de cereja, os seus saltos altos vermelhos, o vestido preto que tinha mais de 4 anos, e fez a sua imaginação voar no penteado que escolheu para começar mais um dia de trabalho. Da casa de banho gritou: “Anita, já tomaste o pequeno-almoço? Temos que sair”.



Na pequena cozinha, desorganizada, sobressaia uma toalha cor-de-rosa, em cima da mesa, com o leite, os cereais, e o café. Anita, a segurar a cabeça com as mãos, ainda ensonada, a tomar o seu pequeno-almoço respondeu: “Mãe, já estou aqui a tua espera. Quando quiseres vamos embora”. Cláudia apareceu e sorriu para a filha, que de imediato retribuiu o sorriso com um caloroso beijo na bochecha da mãe. Enquanto Cláudia colocava na mala tudo o que precisava, mas antes pediu a Anita que lhe pusesse na velha caneca, já com várias rachaduras que ia adquirindo com o passar dos anos, um pouco de café sem açúcar. Cláudia tomou o seu rápido pequeno-almoço e, com Anita, saíram de casa de mãos dadas. Anita tinha orgulho de sair de casa com a mãe pois todos a olhavam pela bonita aparência que tinha e Anita sentia-se vaidosa por ter uma mãe tão bonita.
Já atrasadas, como de costume, andavam em passos acelerados pelos passeios de Carcavelos. Ainda o sol não tinha acordado, e os sapatos de saltos altos de Cláudia ecoavam pela rua ainda vazia de gente. Não havia dinheiro para o autocarro e ambas já se habituaram a caminhar de manhã até a escola de Anita. Diziam elas que este passeio era bom para os glúteos.

Anita e Cláudia eram muito cúmplices. Anita era uma menina muito bem-disposta e apesar da tenra idade percebia perfeitamente que a vida dos pais não tinha sido a melhor e que, por isso, não podia ter ténis de marca, ir ao cinema com as amigas, comprar umas gomas quando lhe apetecia. Esta forma de entender as contingências da vida devia-se muito também ao facto de a mãe não lhe esconder nada do que se passava a sua volta. O caminho que faziam juntas até a escola de Anita era o momento delas. Eram onde trocavam confissões, eram onde choravam, onde Cláudia ajudava Anita a estudar, fazendo várias perguntas sobre o tema do teste. E o dia de hoje não foi excepção. Enquanto caminhavam Cláudia questionava: “O primeiro rei de Portugal foi?” e Anita respondia: “ D. Afonso Henriques”. E as perguntas sucediam-se: “Em que ano nasceu o Condado Portucalense? E o país Portugal?”. Anita muito confiante retorquia sem hesitação: “O Condado Portucalense nasceu em 868 d.C e existiu até 1139. Portugal apareceu em 1139. Com 16 anos D. Afonso Henriques quis concretizar o desejo do pai de tornar o Condado Portucalense independente do reino de Leão e Castela. Nesta altura, D. Teresa mantinha uma relação amorosa com um fidalgo galego, o conde Fernão Peres de Trava. Esta relação prejudicava a ambição de tornar o Condado Portucalense independente. Por isso, apoiado por alguns nobres portucalenses, D. Afonso Henriques revoltou-se contra a sua mãe. Em 1128, D. Teresa é derrotada na batalha de São Mamede por D. Afonso Henriques, que passa a governar o Condado Portucalense.” Cláudia orgulhava-se da filha por, apesar de todas as dificuldades, ter alguém em quem confiava e em quem podia ter a certeza que teria um futuro melhor que o dela.
 

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